Poesia Alma, Fogo, Indiferença 3 Poemas

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Alma

Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)…
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta
traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha,
nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.


Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos
que torcem para reflexões falsas
uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor,
eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente,
como se o meu ser participasse de todos os homens,
incompletamente de cada (?),
por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.

Fernando Pessoa

 

 

Fogo…
(Nilo Ribeiro)

Você me acende,
me incendeia,
me transcende,
desnorteia

arde minha pele,
sinto teu calor,
deixo que revele,
por você o meu amor

o abraço aquecido,
pernas entrelaçadas,
o amor bem esculpido,
na fogueira em brasa

no corpo esplendor,
na alma labareda,
o mais divino amor,
a mais bela companheira

cada vez mais apaixonado,
cada vez mais te admiro,
teu fogo tão iluminado,
da minha vida é brilho

amo te tocar,
me queimar,
me incendiar,
te amar

diva fogosa,
não te esqueço um dia,
mesmo se for embora,
te farei poesia

minha musa inesquecível,
o poeta te ama assim,
mesmo sendo impossível,
vou te amar sem fim…

Nilo Ribeiro

 

 

Como se morre de velhice 
ou de acidente ou de doença, 
morro, Senhor, de indiferença. 

Da indiferença deste mundo 
onde o que se sente e se pensa 
não tem eco, na ausência imensa. 

Na ausência, areia movediça 
onde se escreve igual sentença 
para o que é vencido e o que vença. 

Salva-me, Senhor, do horizonte 
sem estímulo ou recompensa 
onde o amor equivale à ofensa. 

De boca amarga e de alma triste 
sinto a minha própria presença 
num céu de loucura suspensa. 

(Já não se morre de velhice 
nem de acidente nem de doença, 
mas, Senhor, só de indiferença.)

Cecília Meireles

assinatura 2

 

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